Depois de promover uma grande mudança no panorama dos serviços de cloud computing nos Estados Unidos e em outros países, a Amazon Web Services (AWS) chegou oficialmente ao Brasil no fim de 2011. O braço de serviços de computação na nuvem da companhia, mais conhecida por sua loja virtual, deve mexer bastante com o mercado brasileiro.

Para algumas empresas nacionais como a Locaweb, a chegada da Amazon não assusta. Segundo o presidente da companhia, Gilberto Mautner, o lançamento do serviço de computação na nuvem da concorrente norte-americana deu oportunidade para que o mercado abordasse o assunto e, assim, conhecesse melhor a cloud computing. "Acredito que quanto mais gente discorrer sobre a computação na nuvem, melhor", comentou. "Com esse lançamento, tivemos a oportunidade de falar ainda mais com a mídia e expor nossos diferenciais", completou.

Obviamente, o nome da Amazon pode soar intimidador para algumas empresas brasileiras, que já se preparam com novos pacotes e promoções. O presidente da Locaweb defendeu seu negócio e disse que a empresa é um grande player no Brasil e pode concorrer de igual para igual com a Amazon. "Estamos super preparados, especialmente porque nossos produtos são diferentes", afirmou. O executivo dá o exemplo da contratação de um servidor de 2 GB de memória e 50 GB de armazenamento, que na Locaweb sai por R$ 199 e, na Amazon, sai por cerca de R$ 360 reais, sem suporte técnico 24 horas por dia e em português. O executivo ainda se atenta a outro detalhe: o AWS pode ser até 2,5 vezes mais lento que o serviço da Locaweb.

Neste pacote, a Locaweb possui um preço mais competitivo, porém, em outras soluções a Amazon chega com preços bem mais agressivos. A gigante americana trabalha por aqui com os mesmos valores praticados em dólar em outras regiões. Em alguns casos, o preço cobrado pela Amazon pode ser até 1.000% menor pelo mesmo tipo de serviço. José Papo, evangelista de tecnologia da Amazon Web Services para América do Sul, afirma que a AWS oferece pacotes sob demanda que podem sair até de graça em algumas situações. Neste caso, a empresa paga somente o que usar e não há taxa mínima. O cliente estima sua conta utilizando a Calculadora Mensal da AWS e descobre quanto vai gastar a cada 30 dias. Ou seja, a chegada da Amazon no Brasil deve promover mudanças importantes do ponto de vista de valores cobrados pelos data centers locais.

Além dos preços, a Amazon tem outros diferenciais. O sócio-fundador e CTO do Peixe Urbano, Alex Tabor, cliente da Amazon desde 2010, conta que a escolha pelo serviço de cloud da companhia se deu por outros motivos. "Precisávamos de uma empresa que oferecesse algo escalável, que desse para começar pequeno e crescer. Com a Amazon tivemos confiança de que não teríamos problema com essa escala", comenta. O executivo ainda diz que o fato da companhia ser pioneira no mercado também contou pontos. Fora isso, a diversidade de ferramentas e a possibilidade de programar em diversas linguagens também foram primordiais na escolha. "Pensei que, pela experiência da empresa no mercado, não sofreríamos com bugs e outros problemas iniciais de uma companhia nova", ressalta. "Também descobri que a empresa trabalha com máquinas muito boas e que com o serviço EBS [Elastic Block Store], poderíamos adicionar mais memórias com mais facilidade, porque eles plugam mais memória na mesma máquina", conta.

O teste de fogo para o Peixe Urbano foi durante uma campanha que comemorava um ano de empresa. Devido a uma super promoção, o site aumentou sete vezes o seu tráfego e mesmo assim a página se manteve estável e operou muito bem. Alex ainda lembra que, três semanas depois da campanha, eles sofreram um ataque DDOS em que o tráfego aumentou dez vezes. "Não fizemos nada de mais. Rapidinho adicionamos mais memória e não sofremos com lentidão", ressalta. A empresa de compra coletiva ainda usa os servidores norte-americanos, mas está se programando para trazer seus dados para a Amazon Brasil. "Temos um projeto de vir pra cá, pois teríamos a vantagem de estar mais próximos e a latência poderia melhorar. Algumas companhias fizeram pesquisas e descobriram que, quando uma página carrega mais rápido, há um aumento significativo nas vendas", diz.

No Brasil, a Amazon está operando com dois data centers instalados em locais diferentes dentro de São Paulo. A vantagem é que os clientes vão poder acessar os serviços daqui com mais velocidade. Se antes uma aplicação armazenada nos Estados Unidos tinha uma latência de 150 milésimos de segundo, agora, essa operação poderá ser realizada entre 20 e 30 milésimos. "Não tenho dúvida que a Amazon vai chacoalhar o mercado de cloud no Brasil. Os Estados Unidos são bem mais evoluídos neste quesito e a Amazon é a empresa mais madura de lá. Eles estão sempre apresentando novos produtos, novidades, ferramentas, além de chegar com um preço bem mais barato", comenta Alex. "Se as companhias locais quiserem competir terão de aumentar o ritmo de desenvolvimento e qualidade", completa.

Até o momento, a Amazon possui clientes brasileiros como a instituição financeira Orama, a Gol Linhas Aéreas, o Peixe Urbano e o Portal R7. Além disso, a AWS possui um ecossistema de parceiros no país, que estão construindo e vendendo soluções e serviços no modelo pay-as-you-go ("pague o que usar", em português). Estes parceiros incluem a Avanxo, Accenture, Ci&T, Concrete Solutions, Deloitte, Dedalus Prime, Dextra, Infor, Genexus, Globant, MPL, Lumis, Oracle, Summa, e UpToDate Consulting. Apesar da lista de clientes ser, em sua grande maioria, de grande porte, José Papo confirmou que a Amazon atenderá tanto empresas iniciantes quanto grandes companhias aqui no Brasil. Segundo ele, dado o alto nível de atividade entre startups e grandes empresas no país, a companhia espera que a AWS cresça rapidamente.

Pontos negativos

Um dos pontos que pode prejudicar a Amazon no Brasil é o fato da companhia não possuir suporte local (nos pacotes Premium e Basic) e faturamento em reais. Ou seja, os problemas devem ser relatados em inglês e os pagamentos feitos em dólares. "Sabemos da importância de oferecer o suporte em português e, portanto, estamos planejando isso para o futuro. Entretanto, temos pessoas responsáveis pelo atendimento ao cliente e equipe técnica no Brasil, capazes de ajudar a todos", explica José Papo.

Fábio Mello, consultor de tecnologia e infraestrutura, diz que, como potencial cliente da empresa, ele se assusta um pouco com o modelo de negócio da AWS. "É tudo muito automatizado. Você fecha o negócio com uma máquina, paga para uma máquina e não tem um profissional para falar. A cultura brasileira não é a mesma dos americanos, a gente precisa de um gerente e de interação humana para fechar negócio. Acho que se eles chegarem aqui no Brasil com o mesmo esquema de fora, podem se dar mal", conclui.

Outro detalhe que pode prejudicar a companhia norte-americana é a falta de estrutura administrativa no país que esteja de acordo com as legislações brasileiras. Sem isso, dificilmente eles conseguirão clientes no setor público. Segundo Papo, a AWS tem um time de vendas, marketing e engenharia, que opera na infraestrutura do local. Porém, eles pensam em contratar mais pessoas, uma vez que a expectativa de crescimento é grande.

fonte: Olhar Digital: Cloud Computing: qual o impacto da chegada da Amazon no mercado brasileiro?