por Bruno Rosa
04/07/2014

Tida como a principal fusão do setor de telecomunicações do mundo, a união entre Oi e Portugal Telecom (PT) pode não acontecer. No epicentro da crise, que colocou em lado opostos os acionistas das duas empresas, está o risco de um calote de 897 milhões de euros (cerca de R$ 2,717 bilhões), fruto de uma aplicação feita em meados de abril pela companhia portuguesa na Rio Forte, empresa do Grupo Espírito Santo (GES), que, dizem analistas do mercado, passa por dificuldades financeiras e tem 10% das ações da PT. A crise ganhou contornos maiores hoje, após a Oi informar, em fato relevante, que não sabia da operação e que “tomará as medidas necessárias à defesa de seus interesses”.

Nos bastidores, a aplicação feita pela PT já é tratada como dinheiro perdido. Como o risco de calote é real, dizem fontes do setor, o presidente da Oi, Zeinal Bava, já conversa com investidores que participaram da capitalização da companhia carioca, em abril, para acertar uma solução. De acordo com essas fontes, a Oi e a PT vão rever a relação de troca e outros aspectos do acordo assinado entre as empresas.

Após a Oi divulgar fato relevante pedindo mais esclarecimentos sobre a aplicação, foi a vez da PT tentar acalmar os ânimos do mercado. A empresa portuguesa afirmou que está empenhada na resolução da questão e disse estar “convicta de que as várias partes, PT, Oi e GES, serão capazes de encontrar as soluções adequadas para proteger os interesses dos acionistas da PT e da Oi”. Com isso, as ações da Oi caíram 2,76% ontem, acumulando queda de 12% desde sexta-feira, na Bolsa de Valores de São Paulo. Na Bolsa de Lisboa, os papéis da PT tiveram recuo de 7,29%, somando desvalorização de 15,8%.

Na capitalização da Oi, a PT não entrou com dinheiro e sim com seus ativos, avaliados em R$ 5,71 bilhões. Pelo prospecto das empresas, esses ativos serão convertidos em ações da Oi. E, segundo uma fonte, é essa relação de troca que já está sendo discutida. Se realmente o calote se concretizar, a PT vai perder quase metade do valor, entrando com apenas R$ 2,983 bilhões. Assim, a capitalização da Oi, que chegou a R$ 13,96 bilhões, segundo informou a Oi no dia 5 de maio, poderia sofrer uma redução para R$ 11,2 bilhões – e abaixo do patamar mínimo estabelecido no memorando de entendimentos, de outubro do ano passado, de R$ 13,1 bilhões.

— Tudo está sendo rediscutido. Há uma tentativa conciliadora entre ambas as partes. Mas a relação está estremecida, pois Zeinal não sabia dessa operação. A aplicação foi feita nos dias 15 e 17 de abril, e o processo de captação de recursos para a capitalização foi de 03 a 28 de abril. A Oi e seus acionistas não foram informadas porque não tinham de ser informados, pois o negócio foi dentro da “holding” da PT (a SPGS), da qual nem Zeinal Bava faz parte. É natural a companhia carioca falar que não sabia. E não tinham de saber. Mas foi um papel comprado de uma empresa em dificuldade financeira 3 disse a fonte.

O negócio já está sendo investigado pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM, a xerife do mercado de capitais de Portugal). Para especialistas, a autoridade portuguesa investiga se a aplicação dos recursos foi feito para “socorrer” um acionista em dificuldades financeiras. Procurado, PT não retornou. A assessoria de imprensa do BES disse que a operação brasileira não responde pela Rio Forte. BTG, que participou da capitalização, e o BNDES, também não quiseram responder. A Previ não retornou. A Oi disse que só iria se pronunciar por fato relevante.

Segundo Lucas Marins, da Ativa, o mal estar entre as empresas vai resultar em quedas nas ações. Para Pedro Galdi, da SLW, o risco de calote enfraquece a PT.

* Colaborou Rennan Setti
http://oglobo.globo.com/economia/neg...alote-13128412