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  1. #1
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    Confissões na ONU

    Editorial Estadão
    29 Setembro 2015

    As pessoas otimistas e de boa vontade podem apontar pelo menos um sinal de progresso nas palavras da presidente Dilma Rousseff em Nova York. Desta vez ela se absteve de falar em negociação com o Estado Islâmico. Não se pode ter complacência, disse ela em discurso na Organização das Nações Unidas (ONU), com atos de barbárie tais como “aqueles perpetrados pelo chamado Estado Islâmico e por outros grupos associados”. Inegável o avanço nesse quesito. Mas nenhum grau de boa vontade é suficiente para encontrar algo positivo em seus comentários sobre a economia nacional. Ela continua atribuindo o desastre brasileiro – recessão, desemprego em alta, inflação disparada e contas públicas em frangalhos – à crise iniciada em 2008 nos países mais avançados e ao fim da euforia no mercado internacional de commodities. Nada disso entra na conta de qualquer erro do governo. O discurso, nessa parte, seria até divertido, se fosse menos preocupante.

    Se a presidente se mostra ainda incapaz de entender as barbaridades cometidas na política econômica, especialmente a partir de 2011, como confiar em sua capacidade para consertar os danos e levar o País de volta ao crescimento? “Por seis anos”, disse ela, “buscamos evitar que os efeitos da crise mundial que eclodiu em 2008, no mundo desenvolvido, se abatessem sobre nossa economia e nossa sociedade.” Seus críticos sempre souberam disso e ela confirma, com suas palavras, a própria incapacidade e a de seus ministros de perceber os fatos.

    O mundo começou a vencer a recessão em 2010, a economia americana voltou a crescer, Alemanha e Reino Unido logo se aprumaram e até os países com maiores problemas fiscais conseguiram avançar nos anos seguintes. Os mais dinâmicos da Ásia mantiveram alto ritmo de expansão e vários latino-americanos progrediram mais rapidamente que o Brasil.

    Enquanto isso, o governo brasileiro insistiu em políticas de estímulo ao consumo e de benefícios carimbados para alguns setores e empresas. “Aumentamos os empregos, aumentamos a renda nesse período”, disse a presidente.

    Mas o emprego cresceu principalmente em serviços de baixa produtividade. Na indústria, o nível de ocupação diminuiu seguidamente durante o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff.

    O investimento, também citado como item positivo no discurso presidencial, de fato nunca deslanchou. Bateu em 20,7% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre de 2013. Um ano depois estava em 19,5%. No segundo trimestre deste ano ficou em 17,8%. Mesmo a mais alta dessas taxas seria insuficiente para sustentar uma sólida expansão. Entre 2011 e 2014 o PIB brasileiro cresceu à taxa média anual de 2,1%. Na vizinhança, houve taxas médias de 4,3% no Chile, 5% na Colômbia, 5,2% no Peru e 5,4% no Paraguai.

    Desempenho pior que o do Brasil, entre os sul-americanos, só na Venezuela e na Argentina, também submetidas ao populismo e ao mais tosco intervencionismo.

    “Esse esforço chegou agora ao limite, tanto por razões fiscais internas quanto por aquelas relacionadas ao quadro externo. A lenta recuperação da economia mundial e o fim do superciclo das commodities incidiram negativamente sobre nosso crescimento”, explicou a presidente, num patético esforço de justificação. Não tem sentido falar da “lenta recuperação da economia mundial”, quando até os países mais danificados pela crise iniciada em 2008 crescem mais que o Brasil. A contração de 2,7% projetada pelo Banco Central para este ano é um dos piores desempenhos previstos para 2015. Para 2016 as projeções do mercado indicam um novo recuo de 1%. Nos dois anos a produção industrial, segundo estimativas do setor privado, deve continuar encolhendo.

    Quanto à excessiva dependência da exportação de commodities, é consequência dos erros econômicos e diplomáticos dos governos petistas. A menção ao fim do “superciclo das commodities”, longe de ser uma justificativa, é uma confissão de incompetência.
    http://www.estadao.com.br/noticias/g...nu,10000000123

  2. #2
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    A mentira da crise internacional

    Cerca de 88% da produção brasileira é destinada ao mercado interno, apenas 12% do que produzimos é exportado -- as exportações de commodities são cerca de 5% do produto brasileiro. Portanto, uma queda de 15% no preço de todas as commodities (algo incomum) seguida por alguns anos de estabilidade de preços nesse nível mais baixo tem um efeito direto sobre o produto brasileiro inferior a 0,5% no primeiro ano e nenhum efeito nos anos seguintes.


    Por Bernardo Guimarães
    28/09/15

    Mais uma vez, a tal crise internacional é usada pelo governo como justificativa para o fraco desempenho econômico do Brasil nos últimos anos. Faz sentido essa justificativa?

    Se a economia mundial cresce pouco, é natural que o país acabe sendo afetado. Em primeiro lugar, pelo efeito direto: a demanda por nossas exportações e a capacidade de investimento estrangeiro crescem junto com a economia mundial. Em segundo lugar, porque os motivos que fazem a economia mundial crescer pouco também devem afetar o Brasil, sejam lá quais forem esses motivos.

    Vamos, então, aos dados. O gráfico abaixo mostra o crescimento do produto mundial entre 1991 até 2014.



    Vemos, em 2009, o efeito da crise internacional, mas e depois? A economia mundial cresceu 3,6% ao ano no período 2011-2014, praticamente o mesmo que entre 1995-2002 e 2007-2010 (3,5% ao ano nos dois casos). No período correspondente ao primeiro mandato de Lula, 2003-2006, a economia mundial cresceu 5% ao ano.

    Nem todos os países estão indo bem, como sempre, mas a economia mundial tem crescido bem e sem solavancos desde 2011. Além disso, são os países emergentes, os mais parecidos com o Brasil, aqueles que mais têm crescido. Quem não vai bem é a velha Europa.

    As evidências sobre a tal crise internacional parecem se basear em exemplos específicos, do tipo “saiu ontem no jornal que tal país da Europa está em recessão este ano”. Isso faz tanto sentido quanto usar uma matéria do telejornal que noticia crimes como evidência sobre o aumento da criminalidade. O gráfico deste post mostra o crescimento da economia mundial como um todo.

    Os dados podem parecer surpreendentes, pois tanto os países europeus quanto os asiáticos parecem estar crescendo menos que cresciam antes. Note, porém, que na década de 1990, os países asiáticos tinham um peso modesto na economia mundial. Assim, naqueles tempos, um crescimento de 10% ao ano na China não afetava tanto a economia do mundo como um todo (assim como um grande aumento na remuneração do garoto estagiário não muda muito a renda da família).

    Desde então, as economias asiáticas cresceram muito e passaram a ter um peso muito maior no produto do mundo. Hoje, um crescimento de 7% na China corresponde a um aumento substancial na demanda e na capacidade de investimento mundial (na analogia com a renda da família, a China não é mais o garoto estagiário, é um gerente com um bom salário).

    Está bem, a economia mundial vem crescendo bem, mas essa não é a única variável relevante no cenário internacional, certo? Sim. Duas outras variáveis importantes são: (1) a taxa de juros vigente nos países desenvolvidos e (2) o preço dos produtos não industrializados (as tais commodities).

    Como eu expliquei neste post, a taxa de juros norte-americana em termos reais (já descontada a inflação do dólar) pode ser vista, de maneira bem simplificada, como uma espécie de taxa Selic do mundo. Quando os juros reais americanos estão baixos, emprestar ao governo dos Estados Unidos rende muito pouco. Assim, outras oportunidades de investimento ficam mais atraente. As taxas de juros reais nos países desenvolvidos estão em níveis baixíssimos, o que é muito bom para as economias emergentes, como o Brasil.

    Por fim, os preços das commodities. Não estão tão baixos (em termos históricos), mas meu ponto aqui é outro. Quão importantes são esses preços?

    A exportação de produtos não industriais foi responsável por 38,5% do valor total exportado pelo Brasil em 2014. Bastante. Porém, cerca de 88% da produção brasileira é destinada ao mercado interno, apenas 12% do que produzimos é exportado.

    Assim, as exportações de commodities são cerca de 5% do produto brasileiro. Além disso, cerca de 2% do produto brasileiro é gasto com a importação de produtos não industriais. Quando as commodities estão baratas, recebemos menos pela soja exportada, mas também pagamos menos pelo trigo que importamos.

    Portanto, uma queda de 15% no preço de todas as commodities (algo incomum) seguida por alguns anos de estabilidade de preços nesse nível mais baixo tem um efeito direto sobre o produto brasileiro inferior a 0,5% no primeiro ano e nenhum efeito nos anos seguintes (pois os dados de crescimento comparam um ano com o ano anterior). Efeitos indiretos podem atenuar ou acentuar o efeito direto.

    Assim, variações nos preços de commodities afetam o Brasil, mas não tanto para derrubar nossa economia agora, nem para justificar o desempenho bom na década passada.

    Em suma, a crise internacional do discurso oficial é uma mentira.

    Os reais motivos para a forte desaceleração da economia brasileira durante o governo de Dilma Rousseff são outros. Ao usar a crise internacional como justificativa para os déficits em anos passados, a presidente não está reconhecendo os erros que nos trouxeram a uma situação de baixa produtividade e pouco investimento.

    Referências:
    – Boa parte desse post foi adaptada de um trecho do meu livro “A Riqueza da Nação no Século XXI”.
    – Os dados para o crescimento mundial eu tirei do site do FMI.
    – Os dados de exportação e importação eu tirei do site do ministério que cuida disso.
    – Discurso da presidente: “Por seis anos, buscamos evitar que os efeitos da crise mundial que eclodiu em 2008, no mundo desenvolvido, se abatessem sobre nossa economia e sociedade.
    Detalhe:
    – Exemplo de efeito indireto atenuante: se cai demais a demanda internacional por bens agrícolas e seus preços nos mercados internacionais, o produtor pode passar a produzir outra coisa, possivelmente para o mercado interno.
    http://aeconomianoseculo21.blogfolha...internacional/

  3. #3
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    Chame o ladrão

    Alexandre Schwartsman
    30/09/2015

    Flagrado, o larápio esperto apela para o tradicional berro de "Pega ladrão!", na esperança de se safar no meio da confusão, deixando que outro pague pelo seu crime.

    A mesma ética exemplar pode ser encontrada na tentativa recente de economistas vinculados ao PT de atribuir as atuais dificuldades enfrentadas pelo país à suposta austeridade fiscal, deixando de lado sua responsabilidade pelas políticas que, ao final das contas, jogaram o país na crise.

    Segundo esse pessoal, nada justificaria a reversão da política econômica adotada a partir deste ano. A que eles propõem, portanto, é essencialmente a mesma que guiou o país no primeiro governo Dilma: expansão do gasto, redução na marra da taxa de juros e intervenção pesada do governo no domínio econômico.

    Não por acaso, muitos dos autores da atual proposta são os mesmos que manifestaram apoio à reeleição da presidente no ano passado, embora tenham tentado se passar por críticos da política econômica quando a coisa ficou feia.

    Aparentemente, inflação superior a 6% ao ano, mesmo com preços reprimidos, não seria motivo de preocupação. Nem, é claro, um deficit externo que superou US$ 100 bilhões no ano passado, e muito menos o virtual desparecimento do superavit primário do setor público, que por muitos anos havia se mantido na casa de 3% do PIB, mas que em 2014 se transformou num deficit (oficial) de 0,6% do PIB —enquanto estimativas de especialistas sugerem que, descontadas as "pedaladas", o número verdadeiro teria se aproximado de 1,5% do PIB.

    Da mesma forma o crescimento da dívida pública de quase 10 pontos percentuais entre 2010 e 2014 não mereceria qualquer reparo.

    Deixa-se convenientemente de lado o fracasso do crescimento no período, quando o PIB se expandiu a pouco mais de 2% ao ano, atribuído à "crise internacional", muito embora o crescimento mundial tenha se mantido praticamente inalterado (3,6% ao ano) e a relação entre os preços das exportações e importações brasileiras tenha sido simplesmente o mais favorável desde 1978, pelo menos.

    A verdade que os punguistas econômicos querem esquecer é que as políticas que defenderam então, e que agora pedem de volta, colocaram o país numa situação insustentável.

    Sua manutenção poderia até adiar o encontro com a realidade por mais um ano ou dois, mas apenas à custa do aprofundamento das distorções que se acumularam nos últimos anos: inflação mais alta, dívida em crescimento e déficits externos ainda maiores.

    Note-se que isso provavelmente não conseguiria impedir a recessão. De fato, como notado pelos economistas que fazem parte do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos, a recessão se iniciou em meados do ano passado, muito antes de qualquer discussão sobre a possibilidade de alteração da tal Nova Matriz Macroeconômica.

    Em particular, o investimento, variável-chave para o crescimento sustentável, vem em queda desde 2013, e acumulava retração de quase 8,5% quando os punguistas louvavam a política em vigor.

    O que eles hoje recomendam é exatamente o que nos trouxe à situação lastimável em que estamos.

    http://www1.folha.uol.com.br/colunas...o-ladrao.shtml

  4. #4
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    O modelo esgotado

    A Fundação Perseu Abramo, extensão acadêmica do PT, divulgou um documento de pesadas críticas à política econômica, atribuindo ao ajuste fiscal o risco da perda de todos os avanços sociais conquistados nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva.


    Quando reconheceu nessa segunda-feira, em pronunciamento na Assembleia-Geral da ONU, que o modelo de crescimento econômico do Brasil, adotado após a crise de 2008, “chegou no limite”, a presidente Dilma pretendeu avisar os investidores internacionais que este é um momento de transição “para um novo ciclo de expansão”. No fundo, pediu paciência com o País, até que reencontre seu rumo.

    Sem querer, Dilma também passou um recado para a principal facção do seu partido, o PT, que, embora base do governo, inicia ampla manobra de oposição à sua atual política econômica. O recado subjacente é o de que não cabe o retorno da orientação conhecida como Nova Matriz Macroeconômica, que pretendeu ser uma resposta contracíclica do seu primeiro período de governo e que deu miseravelmente errado.

    É improvável que seja ouvida, porque ela própria emite sinais de vacilação. Reluta em se entregar de corpo e alma à nova estratégia de ajuste fiscal em curso.

    Um documento de 144 páginas, denominado “Por um Brasil justo e democrático”, lançado nessa segunda-feira pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, elaborado por mais de cem especialistas, refuga veementemente a atual opção de resposta à crise, comandada pelo ministro Joaquim Levy, “porque não funciona” e “porque defende os interesses dos bancos”.

    Pede mudança radical de orientação e exige a volta à política econômica anterior, baseada em mais despesas públicas, aumento dos impostos e derrubada dos juros. São propostas que, na sua essência, pedem a volta do modelo anterior praticado ao longo do primeiro período deste governo e que, no entanto, “chegou no limite”.

    O empenho com que essa corrente majoritária do PT se atira à oposição ao ajuste reflete a aflição com a perda crescente de apoio popular do atual governo e com a perspectiva de desastres eleitorais em 2016 e em 2018.

    O erro principal desse diagnóstico é atribuir os atuais estragos da economia ao ajuste fiscal, que nem foi votado no Congresso e que, portanto, ainda não pode ter produzido seus efeitos.

    A derrubada do PIB, a inflação de quase 10% ao ano, o desemprego que ultrapassa os 8% ao ano, o definhamento da indústria, a asfixia da Petrobrás, a prostração do setor do etanol e a desorganização do sistema elétrico – tudo isso e tanta coisa mais foram produzidos pela política econômica anterior.

    Desde dezembro, o ministro Joaquim Levy vem pregando a estratégia de crescimento econômico baseada na recuperação dos fundamentos da economia e da confiança. Como ainda ontem esclareceu no evento “Empresas Mais”, promovido pelo Estadão, a execução desse programa se compõe de três fases: ajuste das contas públicas (sem o que nada acontece), retomada da confiança e do crédito e reformas de base, especialmente a da Previdência.

    Não basta reconhecer que o modelo anterior esteja esgotado. A presidente Dilma precisa escolher – e defender com todas as forças – o que de fato pretende. A divulgação da proposta do PT tem o mérito de apontar o atalho alternativo. Se corresponde a um modelo esgotado, é preciso também rejeitá-lo sem ambiguidades.
    http://economia.estadao.com.br/notic...do,10000000138

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