Fernando Nakagawa, correspondente,
O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2016

LONDRES - O recente fluxo de capital estrangeiro para o Brasil fortaleceu o real em um ritmo mais acentuado que o observado em outras moedas emergentes, como o rublo russo ou o peso mexicano. E, diante da perspectiva de que o mercado receba ainda mais recursos do exterior, analistas estrangeiros voltam a falar em dólar a R$ 3,00. Para atingir o patamar simbólico, seria preciso apenas o dólar cair 5,5%, levando-se em consideração a cotação de fechamento de sexta-feira, de R$ 3,184.

O diretor da gestora EM Funding em Londres, Wilber Colmerauër, diz ser “questão de tempo” para que o dólar volte a ser negociado abaixo dos R$ 3,00. “Grandes bancos centrais, como da Inglaterra e da Europa, podem adotar mais medidas expansionistas, e é improvável que o Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano) faça alguma coisa antes da eleição presidencial de novembro. Então, se a política brasileira entregar alguma melhora, o dólar cai facilmente abaixo de R$ 3,00 ainda este ano”, diz o gestor.

Movimento. Na consultoria Capital Economics, o economista-chefe para mercados emergentes, Neil Shearing, reviu na quinta-feira o cenário para o real brasileiro e passou a prever dólar a R$ 3,25 no fim de 2016 e a R$ 3,00 no fim de 2017. “Diante da extensão do rali visto nos últimos meses, é difícil que o real brasileiro tenha espaço para se fortalecer muito mais daqui em diante. Mas, pela mesma razão, nós acreditamos que há chances razoáveis de que a moeda mantenha os ganhos recentes e nós estamos revisando as previsões para um patamar mais forte que o consenso do mercado”, diz o analista.

Este ano, a queda do dólar em relação ao real já chega a quase 20% – no início do ano, chegou a estar cotado na casa dos R$ 4,20. O movimento de valorização do real foi intensificado após o afastamento da presidente Dilma Rousseff e a posse de Michel Temer, que trouxe uma equipe econômica muito mais afinada com o pensamento do mercado.

Colmerauër e Shearing concordam que, a partir de agora, é preciso acompanhar o andamento das propostas de reforma no Congresso e eventuais desdobramentos das acusações de corrupção – fatores internos que influenciarão a moeda brasileira. O analista da Capital Economics reconhece que a Câmara suavizou parte da regra do teto de gastos na semana passada, mas nota que é preciso aguardar a conclusão da tramitação do projeto de renegociação da dívida dos Estados.

Já Colmerauër afirma não ter ficado surpreso com a votação e avalia que o risco maior pode estar na chance de investigações das denúncias de corrupção alcançarem nomes como o do presidente em exercício Michel Temer e José Serra.
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