Luiz Henrique Mendes
25/11/2016

Intensificado nos últimos anos com aquisições no Oriente Médio, na Argentina e no Sudeste Asiático, o movimento de internacionalização da BRF já tem prazo para chegar à China. Líder disparado no consumo global de carne suína e segundo principal de carne de frango, o país asiático "inevitavelmente" terá fábricas da empresa brasileira no prazo de três a cinco anos, disse Simon Cheng, o executivo que comanda a operação da BRF no continente asiático.

Se surgirem boas oportunidades de aquisição antes de 2019, a chegada da companhia brasileira à China pode inclusive ser antecipada, indicou o executivo. "A gente está com muita coragem", enfatizou Cheng. O investimento na China tende a ampliar a importância da Ásia para a BRF. Atualmente, a região representa cerca de 15% das vendas. Entre janeiro e setembro de 2016, as vendas na Ásia renderam R$ 3,6 bilhões do total de R$ 21,5 bilhões.

O tom assertivo do diretor-geral da BRF na Ásia sobre o investimento mostra que a companhia avançou no processo de entendimento do mercado da China, considerado muito complexo. "Demanda estudo cauteloso de entrada", afirmara sobre esse mercado o então vice-presidente de finanças e de relações com investidores da companhia brasileira, Augusto Ribeiro Júnior, em entrevista em janeiro deste ano.

De certa forma, os estudos já se traduziram em investimentos. Em 3 de novembro passado, a BRF participou da oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da Cofco Meat na bolsa de Hong Kong, pagando cerca de US$ 20 milhões para ficar com 1,99% do capital da empresa. "O montante e a fatia não são substanciais", ponderou Cheng, destacando que a parceria com a chinesa pode representar um trunfo tanto para as exportações da BRF a partir do Brasil quanto na própria China.

Ao se tornar acionista da Cofco Meat, a empresa brasileira se aproxima da maior detentora de cotas de importação de carnes da China. O ponto positivo dessa proximidade é evidente, tendo em vista que os chineses estão entre os três maiores importadores de carne de frango e carne suína do Brasil, e que a BRF lidera as exportações desses proteínas. A BRF tem oito frigoríficos habilitados a exportar carnes para a China.

Controlada pela estatal chinesa Cofco, maior empresa de agronegócios e alimentos do país asiático, a Cofco Meat tem receita superior a US$ 700 milhões ao ano e é a quarta maior produtora de carne suína da China, de acordo com levantamento da consultoria americana Frost & Sullivan realizado a pedido da Cofco Meat por ocasião do IPO.

Para a BRF, é também uma possibilidade de conhecer melhor o sistema de produção da China a partir de um grande 'player' local. Ao contrário de países como Brasil e EUA, a indústria de carne suína chinesa é bastante pulverizada.

Tanto é assim que a Cofco Meat, mesmo sendo a quarta maior indústria do setor na China, abateu só 1,2 milhão de suínos no ano passado. Ao todo, a China abateu 696,6 milhões de cabeças, quase 50% da produção global. Para se ter ideia da discrepância, basta dizer que a BRF abateu 7,1 milhões de cabeças nos primeiros nove meses deste ano. O Brasil, quarto maior produtor global, abate menos de 40 milhões de suínos por ano.

Do outro lado, a parceria entre a companhia chinesa e a BRF pode trazer benefícios do ponto de vista de sanidade para a Cofco Meat, o que é relevante dado o histórico de problemas sanitários na suinocultura do país asiático. Em 2015, por exemplo, a China tornou as regulamentações ambiental e de segurança alimentar mais rígidas, reduzindo o plantel de matrizes no país.

Em tese, a proximidade com a BRF poderia despertar o interesse da Cofco Meat em investir no Brasil nas áreas de atuação da brasileira. No entanto, Cheng minimiza a possibilidade. Na avaliação dele, a China não é dependente das importações de carne suína e carne de frango e, embora a demanda seja crescente, a produção local abastece mais de 90% do consumo no país asiático.

"Não há urgência [do Estado chinês]", afirmou o executivo da BRF, contrapondo os segmentos de frango e de suíno ao de bovinos, no qual a China é realmente dependente. Talvez por isso, empresas chinesas já tenham adquirido frigoríficos de bovinos no Uruguai, Austrália e Argentina.

http://amp.valor.com.br/agro/4787419...ate-cinco-anos