Diretor-presidente da Oi diz que credores são sócios na busca por solução

Bruno Rosa
27/11/2016

Sem perder o bom humor, o diretor-presidente da Oi, Marco Schroeder, compara o número de credores da Oi ao Maracanã, com capacidade para 78 mil pessoas. Enquanto a Justiça analisa o pedido de recuperação feito pela Oi, que vai permitir a redução de R$ 783 milhões em sua dívida, a tele mira em novos sócios. A companhia vai propor mudanças no seu plano atual de recuperação judicial, permitindo que bondholders (credores internacionais) troquem parte da dívida por ações imediatamente. E mais: além do egípcio Naguib Sawaris e do fundo abutre Elliot, Ricardo K, ex-presidente da Brasil Telecom, já iniciou conversas para entrar em campo, antecipa o executivo.

A Oi vai alterar o plano de recuperação judicial que foi apresentado aos credores?

Para os bondholders, com cerca de R$ 34 bilhões em dívidas, nossa proposta tinha um desconto de 70% do valor, com a opção de conversão de 85% em ações da Oi caso a companhia não pagasse R$ 10 bilhões dentro de três anos. A oportunidade para destravar essas negociações é falar sobre ações. Vamos propor entregar alguma coisa em ações aos credores já na largada. Então, em vez de pagar R$ 10 bilhões daqui a três anos, eu vou pagar menos que isso, mas entrego alguma coisa em ações agora. O percentual ainda não está definido. E isso talvez seja o grande desafio da negociação, pois, de um lado, você tem os acionistas que não querem ser diluídos e, do outro, os bondholders querendo receber o máximo possível. Temos tudo para fechar esse acordo até o fim do primeiro trimestre de 2017. E, no segundo trimestre, fazer as assembleias.

Mas esse prazo é factível?

Tivemos avanço na última semana. Contratamos uma consultoria financeira (a Laplace) para intermediar a conversa com os credores. Da dívida de R$ 65 bilhões, cerca de R$ 50 bilhões são ligados a instituições financeiras. Se levar em conta juros de 15%, são R$ 7 bilhões por ano. Em 2015, a geração de caixa foi de R$ 7 bilhões e investimos R$ 5 bilhões. Sobram R$ 2 bilhões. Eu consigo pagar quase um terço. Por isso, temos que reestruturar essa dívida. Com a Anatel, com dívida total de R$ 20,2 bilhões, segundo o órgão regulador, podemos trocar por investimentos, prestar serviços em órgãos públicos ou em comunidades que eles identifiquem. Isso começou na quinta-feira, com o início do processo de mediação. Falamos também com o BNDES, que tem dívida de R$ 3,3 bilhões. A minha percepção no BNDES é que a proposta pode ser aceita, pois não haverá redução de taxas, apenas alongamento de prazo.

E qual é o detalhe do pagamento antecipado aos pequenos credores?

Eu vou pagar dívidas de até R$ 50 mil à vista. Basta o juiz autorizar. Isso pega 57.788 credores, que são 86% dos 66.705 credores. O total poderia chegar 79 mil se fosse levado em conta o número de bondholders separados do agente financeiro responsável pela negociação dos títulos. O que era um Maracanã, vai ser um Maracanãzinho. Isso tudo vai reduzir a dívida em R$ 783 milhões.

O fato de a Oi admitir a troca de dívida por ações ...

Sabemos que é preciso destravar a negociação. E isso tudo faz parte da negociação. Nós vamos ter que ceder, e eles também. A companhia está tendo uma boa performance operacional, gerando caixa e fazendo investimento. Mas precisamos resolver a dívida. Já conversamos com alguns acionistas e credores, por meio de representantes dos bondholders. Os credores hoje são sócios da Oi na busca de uma solução. O que eles queriam era converter a dívida em 85% das ações e não ter que esperar três anos. Mas isso é inviável. Sempre há o meio do caminho, com algo intermediário entre zero e 85%.

Quem já procurou a Oi?

Equacionando a dívida e com a evolução regulatória, todos concordam que a empresa tem valor. E, por isso, querem se posicionar. Efetivamente, conversamos com o fundo de investimento Elliot, que fez uma due diligence (processo de auditoria). Existe também um grupo vinculado ao fundo americano Cerberus, que, no Brasil, tem o apoio do Ricardo K, que foi presidente da Brasil Telecom. Eles estão se aproximando no sentido de montar uma proposta para aportar recursos e, com eles, ajudar a pagar parte da dívida e criar condições ou para a empresa fazer aquisições ou investir. O grupo está montando um bloco, com Deloitte e Oliver Wyman (ambas consultorias). Isso começou há três semanas. Já a Elliot também montou um bloco com a Boston Consulting Group, e a Accenture ajudou na due diligence. Dou destaque a esses dois blocos. E tem um que sai muito sai na mídia (o egípcio Naguib Sawaris), mas eu nunca falei com ele. Se ele vier aqui, vou receber.

Eles já fizeram proposta formal?

Não.

Uma fonte afirma que ofertas de menos de US$ 3 bilhões não resolvem o problema da Oi. Isso procede?

Eu acredito nisso. Mas tem uma questão de negociação. Uma coisa é colocar esses recursos para ficar com 10% da empresa; outra para ficar com 90% da companhia. Tem que ver como vai ser a negociação com os credores, pois eles têm que ver a proposta com bons olhos.

Como está o clima com os credores da Holanda?

Alguns credores da Holanda estão nos pressionando. Eles querem condições diferenciadas. Para a Oi, é complicado, pois a companhia tem que tratar os credores da mesma forma. Os administradores judiciais desses credores estão anunciando que deverão converter a suspensão do pagamento da Holanda em um processo de falência. Como a Oi está protegida pela recuperação judicial, o processo continua igual. O que aconteceria é que eles teriam uma gestão maior sobre a empresa da Oi lá fora (que é uma subsidiária) para interagir com a companhia aqui no Brasil de forma a representarem seus interesses. A Justiça deve converter em falência. Lá, há uma legislação muito pró-credor. A falência não é uma solução que interesse a ninguém. Temos que estar engajados na busca da sobrevivência da companhia, que é relevante dentro do sistema integrado de telecomunicações do Brasil. Vamos continuar operando normalmente, prestando nossos serviços para os clientes.

A Oi vai iniciar conversa com a Sky ou com outras empresas do setor, como a TIM?

Eu defendo que a Oi tem fases. A primeira é manter o operacional. Por isso, talvez tenhamos até retardado um pouco essa renegociação com os credores, pois o foco era interno. Era mostrar que tínhamos capacidade de aumentar a geração de caixa. Em outra fase, tem a renegociação da dívida, que é para 2017. Esse é o foco agora. Outra fase que vai impactar a indústria é a nova regulamentação. E tem um quatro momento, que é o da consolidação. Não acredito em consolidação sem antes resolver o operacional e renegociar a dívida. Para mim, a consolidação é para 2018 ou 2019. Você vê alguém comprando ou sendo comprado? Hoje há muitas dúvidas, pois há a questão da regulamentação.

Mas já teve conversa de consolidação?

Quando estávamos conversando com o russo (Mikhail Fridman, do fundo LetterOne), no ano passado, falamos com a TIM de forma mais estruturada. E tiveram as primeiras conversas com a SKY. Não acho que teremos uma conversa agora com eles. Precisamos resolver a dívida.

Para gerar caixa nesse processo de recuperação judicial, o que a Oi pretende vender de ativos?

Em termos de Brasil, são ativos pouco relevantes para vender. Ser uma telecom integrada é bastante relevante. Ativos relevantes para vender são os do exterior, como as operações na África e no Timor. Existem conversas para as operações de Cabo Verde e Namíbia. No Timor, há três competidores, dois fundos de investimento e um empresário local. Para fechar, vai depender do preço. Não vamos fechar a qualquer preço. No balanço, todas as operações de África e Timor valem R$ 4,2 bilhões.

Do ponto de vista operacional, a Oi pretende reduzir os investimentos durante o processo de recuperação judicial?

Se a empresa ficar três anos investindo menos que os concorrentes, ela desaparece do mercado. Por isso, aumentamos esse ano em 14% e vamos aumentar no ano que vem. O investimento maior é em rede 4G e em fibra para aumentar a velocidade da banda larga residencial. No Rio, o nosso projeto de fibra está indo para a Baixada Fluminense. Temos que aumentar o mix de pós-pago. E, para isso, é preciso vender um conjunto de serviços, com TV e banda larga.

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